Saúde sexual| Técnica associada à cirurgia de câncer de próstata pode preservar em até 68% nervos responsáveis pela ereção
Para muitos pacientes com câncer de próstata, a preocupação não envolve somente a obtenção da “cura”. Sabe-se que, após a realização de cirurgia ou radioterapia, recuperar as funções sexual e urinária pode se tornar um dos principais desafios, com impactos que vão além da saúde física e podem atingir autoestima, relacionamentos e qualidade de vida.
Um dos maiores estudos comparativos sobre o tema, o ProtecT (2016), avaliou que a prostatectomia radical foi a modalidade de tratamento da doença a provocar maior impacto negativo sobre a função sexual e a continência urinária. Em outro estudo, publicado no European Urology (2021), a disfunção erétil oito anos após a cirurgia foi observada em 66% dos homens submetidos à prostatectomia robótica, contra 70% daqueles que passaram pela cirurgia aberta.
É justamente nesse ponto que ganha relevância o método NeuroSAFE. Aliada ao procedimento cirúrgico, a técnica utiliza a análise anatomopatológica por congelação da próstata durante a própria operação para verificar se há células tumorais próximas às margens da glândula. Com essa informação obtida ainda durante o procedimento, o cirurgião pode tomar uma decisão mais individualizada sobre a preservação dos feixes nervosos, que circundam a próstata e são responsáveis por produzir a ereção no homem.
No Ceará, a aplicação do método ganhou um marco em abril deste ano, quando foi realizada a primeira cirurgia robótica no estado para tratamento do câncer de próstata utilizando o NeuroSAFE, sob coordenação dos urologistas e cirurgiões robóticos Dr. Diego Capibaribe e Dr. Emanuel Veras.
O Dr. Capibaribe explica que o fato de o câncer ser a prioridade do tratamento não significa que seja necessário ignorar o que acontece depois dele. “A função erétil e a continência urinária fazem parte da qualidade de vida do paciente, por isso, sempre que as características do tumor permitirem, devemos buscar estratégias que possibilitem preservar as estruturas responsáveis por essas funções”, completa.
Em cirurgias convencionais, a dificuldade ocorre principalmente porque os feixes de nervos da função erétil passam muito próximos da próstata. Desta forma, dependendo da localização e da extensão do tumor, a retirada da glândula pode exigir a remoção ou o sacrifício desses nervos para garantir a retirada completa do câncer. O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio entre controle oncológico e preservação funcional.
Segundo o Dr. Veras, tradicionalmente, a decisão de preservar ou não os nervos é baseada principalmente nos exames realizados antes da cirurgia e na avaliação visual e tátil durante o procedimento. “O NeuroSAFE acrescenta uma informação muito importante, pois conseguimos analisar as extremidades da próstada enquanto o paciente ainda está na sala de cirurgia. Se não houver comprometimento tumoral naquela região, temos maior segurança para preservar o feixe nervoso”, detalha.
A evidência científica sobre a metodologia também vem crescendo. Estudo publicado em 2025 no European Urology comparou pacientes submetidos à prostatectomia com e sem NeuroSAFE e encontrou função erétil preservada em 68% dos pacientes um ano após a cirurgia no grupo que utilizou a técnica, contra 58% no grupo sem NeuroSAFE. Os pesquisadores também observaram benefício na preservação funcional, reforçando o potencial da estratégia para ampliar a preservação dos feixes nervosos quando isso é oncologicamente seguro.
“Quando associamos a visão ampliada e a precisão da robótica ao NeuroSAFE, passamos a ter uma ferramenta bastante eficiente para nos guiar durante a operação. O objetivo é retirar o tumor com segurança e, quando possível, preservando ao máximo as estruturas adjacentes”, afirma o Dr. Capibaribe.
Para uma boa evolução do tratamento do câncer de próstata é preciso considerar o paciente para além da doença. “Hoje precisamos pensar também em como esse homem estará meses e anos depois da cirurgia. Poder preservar a função sexual e urinária, quando isso é seguro do ponto de vista oncológico, representa um ganho importante de qualidade de vida”, destaca o Dr. Veras.
A necessidade de discutir o assunto é ainda maior porque a disfunção sexual pode persistir por anos após o tratamento. Os médicos ressaltam, entretanto, que NeuroSAFE e cirurgia robótica não eliminam o risco de perder potência ou sofrer alterações urinárias. O resultado depende de fatores como idade, função erétil antes do tratamento, características e localização do tumor, necessidade ou não de retirar os feixes nervosos, técnica cirúrgica e processo de recuperação individual.


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