Pressão por performance e redes sociais acendem alerta para burnout entre jovens profissionais
A entrada no mercado de trabalho deveria representar uma fase de aprendizado, desenvolvimento e construção de carreira, mas, para muitos jovens profissionais, também tem sido marcada por pressão constante, necessidade de alta performance e dificuldade de desconectar. O cenário ganhou destaque em reportagem recente sobre o crescimento do burnout entre trabalhadores, que aponta a combinação entre cobrança profissional, hiperconexão e comparação nas redes sociais como fatores que podem intensificar o esgotamento mental.
No Brasil, o alerta encontra respaldo nos números. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais chegaram a 546.254 benefícios por incapacidade temporária em 2025, alta de 15,66% em relação ao ano anterior. Dentro desse cenário, os afastamentos especificamente relacionados ao burnout passaram de 823, em 2021, para 7.595, em 2025, crescimento de aproximadamente 823% em quatro anos.
Para Izabela Holanda, diretora da IH Consultoria e Desenvolvimento Humano, o problema não está apenas na quantidade de tarefas, mas na forma como o profissional passa a se relacionar com o próprio desempenho.
“Estamos vivendo uma cultura em que estar ocupado passou a ser confundido com ser produtivo e, muitas vezes, o desempenho profissional acaba sendo usado como medida do próprio valor. Entre os jovens, isso pode ser ainda mais intenso, porque existe uma pressão para construir uma carreira rapidamente, conquistar resultados e, ao mesmo tempo, mostrar esse sucesso nas redes sociais”, explica Izabela Holanda.
A especialista destaca que as redes sociais podem potencializar esse processo ao criar uma percepção distorcida sobre a trajetória profissional. A exposição constante a pessoas que aparentam estar crescendo, viajando, empreendendo ou conquistando posições de destaque pode alimentar a sensação de que é preciso estar sempre avançando.
“O jovem não compara apenas o próprio trabalho com o de um colega. Ele pode comparar sua trajetória inteira com uma seleção dos melhores momentos de dezenas ou centenas de pessoas. Isso cria uma sensação permanente de atraso e insuficiência. É preciso lembrar que carreira não é uma corrida e que desenvolvimento profissional também envolve pausas, erros, aprendizado e períodos de menor velocidade”, afirma Izabela Holanda.
Quando a ambição passa do limite
Segundo Izabela Holanda, ter ambição e buscar crescimento profissional não são problemas. O sinal de alerta aparece quando a busca por resultados passa a comprometer o descanso, os relacionamentos e a própria percepção de bem-estar.
Mais do que a quantidade de trabalho, é importante observar quando a performance passa a definir a identidade do profissional.
“Existe uma diferença entre querer crescer e sentir que é preciso provar o próprio valor o tempo inteiro. Quando cada resultado vira uma validação pessoal e cada pausa é interpretada como atraso, a relação com o trabalho pode se tornar desgastante. A ambição é saudável quando impulsiona o desenvolvimento; ela se torna um problema quando não permite mais descanso, limites ou espaço para viver outras dimensões da vida”, explica Izabela Holanda.
Entre os sinais que merecem atenção estão cansaço persistente, irritabilidade, perda de motivação, dificuldade de concentração, sensação de estar sempre atrasado e incapacidade de se desligar das atividades profissionais, mesmo fora do expediente.
“Nem todo cansaço é burnout, mas todo processo de esgotamento merece atenção. O problema é quando a pessoa começa a normalizar sinais que mostram que sua relação com o trabalho deixou de ser saudável. Descansar não deveria ser visto como falta de compromisso ou ambição”, pontua Izabela Holanda.
Responsabilidade também é das empresas
Embora o cuidado individual seja importante, a especialista ressalta que a prevenção do adoecimento não pode ser colocada exclusivamente sobre o trabalhador.
Ambientes com metas desproporcionais, falta de clareza sobre responsabilidades, comunicação inadequada, excesso de cobrança e disponibilidade permanente podem contribuir para o aumento do estresse ocupacional. Por isso, empresas e lideranças também precisam rever práticas de gestão e criar condições para que os profissionais possam desempenhar suas funções sem transformar o trabalho em uma fonte permanente de exaustão.
“O discurso de que cada pessoa precisa simplesmente aprender a lidar melhor com a pressão é insuficiente. A saúde mental no trabalho também depende de como as empresas organizam suas rotinas, estabelecem metas, desenvolvem lideranças e reconhecem as pessoas. Não adianta falar sobre felicidade no trabalho se a estrutura cotidiana incentiva o esgotamento”, afirma Izabela Holanda.
O tema ganha ainda mais relevância diante do volume de afastamentos registrados no país. Apesar de os dados de 2026 apontarem uma redução de 13,2% nos afastamentos por transtornos mentais no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período de 2025, foram registrados 232.382 afastamentos entre janeiro e junho, número que ainda mantém a saúde mental entre os principais desafios do mundo do trabalho.
Para Izabela Holanda, a discussão sobre burnout entre jovens deve servir como oportunidade para repensar o próprio conceito de sucesso profissional.
“Precisamos construir uma cultura em que crescer profissionalmente não signifique necessariamente trabalhar mais, responder a qualquer hora ou estar permanentemente disponível. Uma carreira sustentável é aquela que permite desenvolvimento sem abrir mão da saúde, das relações e da vida fora do trabalho”, conclui Izabela Holanda.



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