Mesmo com queda nos afastamentos, saúde mental ainda desafia empresas brasileiras
O Brasil registrou 232.382 afastamentos do trabalho por transtornos mentais entre janeiro e junho de 2026. Embora o número represente uma redução de 13,2% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 267.690 casos, o cenário ainda acende um alerta para empresas e profissionais de Recursos Humanos. Os dados são do Data Cajuína, a partir de microdados do INSS.
A queda ocorre após um 2025 marcado por recorde histórico de afastamentos relacionados à saúde mental. Ao longo do ano passado, foram 546.254 concessões de benefícios por incapacidade temporária associadas a transtornos mentais, alta de 15% em relação ao ciclo anterior.
Para a diretora da IH Consultoria e Desenvolvimento Humano, Izabela Holanda, a redução observada em 2026 deve ser interpretada com cautela. Segundo ela, o número não representa necessariamente uma melhora proporcional das condições emocionais dos trabalhadores.
“Uma queda nos afastamentos é um dado positivo, mas não podemos transformar esse indicador isoladamente em uma conclusão de que a saúde mental dos trabalhadores melhorou. Existe uma parcela de profissionais que continua trabalhando mesmo diante de sofrimento emocional, seja por medo de perder o emprego, por receio de julgamento ou por não reconhecer que precisa de ajuda”, avalia Izabela Holanda.
Para a especialista, outro ponto importante é entender que o afastamento representa um indicador tardio de um problema que pode ter começado muito antes.
“O afastamento é um indicador importante, mas é também um indicador tardio. Quando a empresa olha apenas para quem já chegou ao afastamento, está enxergando a ponta do problema. É preciso acompanhar sinais anteriores, como absenteísmo, turnover, sobrecarga, conflitos, horas extras e a percepção dos próprios colaboradores”, explica Izabela Holanda.
O comportamento dos números ao longo do primeiro semestre reforça a necessidade de uma análise mais ampla. Entre janeiro e março foram registrados 105.874 afastamentos. Já no segundo trimestre, o volume subiu para 126.508 licenças, embora tenha permanecido 20,2% abaixo do mesmo período de 2025.
A ansiedade permanece como principal motivo de afastamento. O transtorno, classificado pelo CID F41, respondeu por 74.016 concessões no primeiro semestre, quase 32% do total. Na sequência aparecem os episódios depressivos, com 50.859 casos, além do transtorno afetivo bipolar, com 25.831, e do transtorno depressivo recorrente, com 25.441 ocorrências.
Outro aspecto que chama atenção é a dificuldade de falar sobre saúde mental dentro das próprias empresas. Uma pesquisa do Mind Health Report, estudo anual da AXA divulgado em agosto deste ano, mostrou que 46% dos profissionais brasileiros não discutiriam seus problemas de saúde mental no ambiente de trabalho. Entre os motivos estão a percepção de que o tema é privado e o receio de consequências para a carreira.
Para Izabela Holanda, esse silêncio representa um dos principais desafios para as organizações.
“Quando o trabalhador só consegue falar sobre saúde mental no momento em que já está afastado, a empresa perdeu uma oportunidade importante de prevenção. O papel do RH não deve ser apenas administrar o afastamento, mas criar condições para que o profissional consiga sinalizar sobrecarga, ansiedade, exaustão e outros sinais de sofrimento antes que eles se agravem”, afirma Izabela Holanda.
A especialista destaca ainda que o tema ganhou uma dimensão adicional para as empresas em 2026, com a entrada em vigor das novas exigências relacionadas aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A discussão passa a envolver não apenas benefícios e programas de qualidade de vida, mas também gestão de riscos, liderança, organização do trabalho e prevenção.
“Saúde mental não pode aparecer na agenda da empresa apenas em setembro. Uma palestra ou uma campanha de conscientização são importantes, mas precisam fazer parte de uma política permanente de cuidado e prevenção. É necessário olhar para carga de trabalho, metas, relações de liderança, assédio, segurança psicológica e para a capacidade que a empresa oferece ao trabalhador de pedir ajuda”, explica Izabela Holanda.
O impacto também ultrapassa a questão individual. Os afastamentos geram custos previdenciários, perda de produtividade, necessidade de substituição de profissionais e impactos sobre equipes que precisam redistribuir atividades. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), realizado com base em dados oficiais do INSS, mostra o crescimento dos afastamentos decorrentes de problemas de saúde mental nos últimos anos.
“Quando uma pessoa chega ao afastamento, existe um custo humano, mas também existe um impacto para a empresa e para toda a sociedade. Investir em prevenção é, portanto, uma estratégia de cuidado e também de sustentabilidade do negócio”, conclui Izabela Holanda.
Para Izabela Holanda, o desafio das empresas é transformar os dados em decisões de gestão. Mais do que acompanhar quantas pessoas adoeceram ou se afastaram, é necessário identificar quais condições de trabalho podem estar contribuindo para esse cenário e agir antes que o problema chegue ao afastamento.
“Uma organização que realmente quer cuidar da saúde mental precisa olhar para as causas e não apenas para as consequências. Isso significa ouvir as pessoas, preparar as lideranças, acompanhar indicadores e, principalmente, ter coragem para rever práticas de gestão que possam estar produzindo sobrecarga, insegurança ou adoecimento”, conclui Izabela Holanda.



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